segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Zero das Alamedas

Zero das Alamedas era como era conhecido. Amanheceu morto na esquina da Rodolfo Teófilo com a Professor Gutenberg. Ninguém sabia seu nome de verdade, ou como morrera, mas todo mundo sabia que era, positivamente, sem sombra de dúvida, um zero à esquerda.

O Remédio

Observando a janela do banheiro, a filha brinca que as gotas de chuva estão numa corrida pela vida para chegar ao parapeito. Algumas chegam inteiras, mas a maioria é engolida pelas gotas maiores. As menores fogem, as grandes caçam.

Atrás do sanitário, ela encontra o guarda-chuva.

"O pai esqueceu o guarda-chuva", a filha diz do banheiro.
"O pai sabe se cuidar. Termine de colocar o catarro pra fora." a mãe responde da sala, sem tirar os olhos do computador.
"Você diz para mim nunca se esquecer de levar o guarda-chuva", diz a filha.
"Para eu nunca esquecer."
"Para eu nunca esquecer", a filha repete, com raiva por ter errado. "Ele vai se molhar e ficar doente também."
"Um pouquinho de chuva não faz mal."
"Mas eu fiquei doente só com um tiquinho de nada de chuva!"

"Você ficou doente porque alguma criança da escola passou para você, filha. Deixa eu terminar isso aqui, vai."

A chuva engrossa. A janela deixa de ser uma corrida e vira uma cachoeira. A filha caminha até o sofá, fungando, enrola-se num lençol e deita-se. Continua frio.

"Quando chover de novo e você estiver boa, a gente sai para tomar banho de chuva, que tal?"
"O pai saiu faz tempo", disse a filha.
"Ele volta já, amor", responde a mãe. Da cozinha, a chaleira ferve. A mãe se levanta para dar uma checada.

Enquanto isso, o pai espera sua vez de comprar um anti-histamínico na fila da farmácia.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Dois mundos.

Há dois mundos: o Todo-Dia e o Algumas-Vezes. No primeiro, apenas vivo. No outro, onde habita a melancolia e meus olhos enxergam novamente: é nesse que moro.

A espera

Eu espero. Há anos que espero. O mundo gira, o sol brilha. Parece que faz bilhões de anos que espero.

Estou sentado, próximo da praia. Da nossa praia. De onde estou, posso ver o mar, o horizonte. Aqui será um bom lugar para nos reencontrarmos.

Realizei alguns preparativos, tudo que era possível, pois não sei quanto tempo esperarei, Todavia, sabendo como nós somos, sei que esperarei muito. Enquanto ele não chegar, eu esperarei.

E, quando ele chegar, finalmente poderei me levantar e dizer que não o amo mais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Torta.

Afrânio roubara uma torta para sobreviver. Coisa pequena, uma torta. Sua vigília já durava duas noites; funcionava a água da chuva e restos do lixo; estava sem mulher, sem casa, sem dinheiro. Pelo menos agora, Afrânio não estava sem torta. Provou do sabor com a ponta suja do dedo. Franziu o cenho. Não gostava de torta de banana. Comeu um pedaço. Saboreou o quanto pode, mas a sofreguidão exigia rapidez. A torta foi diminuindo rápido. Ouviu passos. Era o padeiro, à caça de retaliação. Afrânio já namorava aquela sobremesa havia dois dias, desde que a viu pela vitrine. Quando uma senhora a comprou, Afrânio rapidamente surrupiou-lhe a guloseima, mas com cuidado para não deixar cair. Coisa pequena, uma torta. Correu, dobrou a esquina, pulou num beco, caiu no entulho, prendeu a respiração. E lá estava agora. Comeu outro pedaço. Engolia rápido, para não sentir o gosto. Os passos acharam-no. "Vagabundo sem-vergonha!" A pancada do padeiro - homem grande, de bigode farto - veio certeira em suas costas. Esmurrou-lhe o nariz, chutou-lhe o estômago. Mas a torta, já meio mastigada, ele não lhe tomou. Afrânio permaneceu alguns minutos imóvel, recuperando seu corpo. Ratos tentavam roubar-lhe a comida. Expulsou-os. Comeu mais um pedaço. Mastigou devagar, a boca dolorida. Coisa pequena, uma torta.

sábado, 25 de junho de 2011

Os Doces de Melinha.

Melinha gostava do novo carteiro, Seu Vasconcelos, mas não o conhecia. Quando a campainha tocava, ela largava suas bonecas no tapete da sala e corría para o quarto. Sua mãe odiava. "Amélia, olha a correria dentro de casa!" Melinha queria observar Seu Vasconcelos pela janela. Gostava de vê-lo ir embora na bicicleta azul-marinho (que nem a sua, só que maior.) Seu Vasconcelos tinha ombros largos e olheiras nos olhos. Nunca se falaram, ele e Melinha, mas ela gostava do mistério e o confundia com amor.
     Numa tarde de domingo, a mãe de Melinha estava cozinhando doces. Melinha pegou dois. Um para si; o outro, de presente para Seu Vasconcelos. No jardim, debaixo da árvore, ela esperou com suas bonecas.
     Mas, quando chegou, Seu Vasconcelos, que estava atrasado, não passou na casa dela. Ficou pela vizinha desquitada, Dona Zuleica, que o recebeu com um cigarro e uma mão naqueles ombros largos. Permaneceu a tarde inteira lá, até Melinha vê-lo ir embora na bicicleta azul-marinho. O carteiro não percebeu Melinha, escondida que estava na sombra da árvore. Chorava baixinho. Ela gostava do mistério e o confundia com amor. Às mordidelas, consolova-se com os doces.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Vernissage.

Graças ao sucesso de sua última exposição, o artista Gudán convida a todos e todas para sua nova mostra, "Neo Universum", na Galeria Galáxias. Há muito tempo, a arte de Gudán se tornou sinônimo de vida e mistério. Com o novo trabalho, este artista multifacetado explora novas formas e novos conceitos; às vezes numa tentativa de acessar o ininteligível, às vezes apenas brincando com seu material e público, a arte de Gudán continua diversa e cativante.
     Quando: Primeiro dia após o último domingo.
     Onde: Galeria Galáxias, nº 1, Avenida Quasar.
     Estudantes fardados pagam meia.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Retorno do Homem-Asa.

DEPOIS DE ANOS DESAPARECIDO, HERÓI É VISTO POR MENINO. Depois de dois anos desaparecido, o Homem-Asa foi avistado ontem à noite por Francisco Lima, 10. Francisco é o primeiro a avistar o vigilante desde seu desaparecimento. "Eu estava no quarto, quando vi ele pela janela no prédio do lado. Aí eu me escondi e fiquei olhando de fininho. Ele só ficou um tempo sentado lá, sem fazer nada. Só consegui tirar uma foto, depois ele foi embora." Há dois anos, o Sr. Dinamite informou a imprensa que a esposa do Homem-Asa, Aniela Boleslava perdera, tragicamente, sua luta contra o câncer. "Nossa comunidade está em luto. Aniela era nossa amiga e sentiremos sua falta. O Homem-Asa pediu-me para informa-lhes que ele não estará disponível para perguntas. Disse também que a partir de hoje, ele se ausentará de suas atividades indefinidamente. Contudo, a Dupla Hélice e eu iremos nos encarregar para que nada aconteça aos cidadãos em sua ausência."
     Indagados sobre o retorno, os heróis responderam. "Foi uma grande perda, e eu espero que ele tenha encontrado a paz dentro de si", disse Amálgama, da Dupla Hélice. A outra metade da dupla, Belonave, respondeu: "Eu ainda sinto a falta da Ani. Visitei os dois no hospital, e quando ela piorou, eu falei para ele não se preocupar, que nós iríamos cuidar de tudo. É muito apropriado que tenha sido uma criança para quem ele primeiro se mostrou. Vai ser bom colocar a conversa em dia." O Sr. Dinamite ofereceu esta resposta: "Ele sempre foi um herói. É muito bom tê-lo novamente entre nós". O Espelho não foi encontrado para comentários.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Devemos quebrar a corrente de ódio.

If you don't change the spirit first, change what's inside... then you'll only replace the Romans with someone else, and nothing changes. Even if you're victorious, you'll still be filled with the poison. You've got to break the chain of evil.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Marquinhos foge de casa.

No criado-mudo, a mãe de Marquinhos encontrou o seguinte bilhete:
Querida Mamãe,
Nesse fim de semana, eu ia fugir lá pra casa da Vó Neuza. Só que eu tive que comprar o pão do dia e fiquei sem nada. Não tem como a senhora me arrumar dinheiro preu fugir semana que vem?
Amor,
Marcos.